terça-feira, 21 de abril de 2015

É verdade que pessoa com desejo de comer terra está com vermes?

Não é tão raro ouvir histórias de alguma pessoa, criança, que sente vontade de comer terra, tijolo de barro, entre outras coisas. A sabedoria popular diz que quem sente esse estranho desejo é porque está com vermes.
De acordo com a professora Roseli de Moura Espíndola, como algumas parasitoses levam à perda sanguínea, acredita-se que as pessoas que têm esse desejo podem apresentar uma deficiência de ferro e, por isso, a vontade de comer terra estaria associada à necessidade de repor o mineral, abundante no solo, perdido pelo sangue. Parasitas como o Ancylostoma duodenal e Necatur americanus podem penetrar na pele ou serem adquiridas pela ingestão oral de larvas presentes na água ou em alimentos contaminados. Nos intestinos, liberam uma substância que estimula o sangramento, para se alimentarem dele. A consequência é a diminuição de ferro e dos glóbulos vermelhos do sangue.
Qual verme proporciona uma vontade de comer terra ou tijolo? Por quê?
Ancylostoma duodenal e Necatur americanus podem penetrar na pele ou ser adquirida pela ingestão oral de larvas presentes na água ou em alimentos contaminados. As infecções agudas podem resultar em fadiga, fraqueza, dores abdominais e diarréia com perda de sangue. As infecções crônicas resultam em anemia, palidez, cansaço, desânimo, fraqueza, tonturas, vertigens e dores musculares e vontade de comer terra. Instalados nos intestinos, liberam uma substância que estimula o sangramento, pois o verme se alimenta do sangue. A conseqüência é uma diminuição dos glóbulos vermelhos do sangue e do ferro. A vontade de comer terra estaria associada a necessidade de repor o ferro perdido pelo sangue.

Síndrome de Pica: mania de comer coisas estranhas

 Depois de falarmos sobre a tricofagia, doença na qual as pessoas arrancam os próprios cabelos para ingeri-los – veja AQUI! – hoje, apresento a vocês a alotriofagia, também conhecida como “Síndrome de Pica” que se trata de uma condição bastante rara entre os seres humanos, na qual o indivíduo tem um apetite descontrolado por coisas ou substâncias não comestíveis, como tecidos, sabão, moedas, carvão, pedra e tudo mais.
O nome “pica” vem latim e significa “pega”, um pássaro do hemisfério norte conhecido por comer quase de tudo que encontrar por sua frente. Esta síndrome pode ser vista em todas as idades, mas especialmente em mulheres grávidas e crianças, principalmente aquelas que possuem desnutrição ou dificuldades no desenvolvimento. Mas atenção às mamães: se uma criança é vista comendo terra, tentando engolir brinquedos, pedrinhas, botão de roupas e até cocô não significa que ela tenha pica, pois sabemos que no desenvolvimento normal da criança existe a fase em que tudo é “experimentável“. Para que tais hábitos sejam considerados pica isso precisa persistir pelo menos por um mês durante um período de vida quando não se considera normal, dentro do quadro de desenvolvimento humano. Ou seja, se uma pessoa não pode ver um pedaço de carvão, ou fica tentando comer a própria roupa… É um caso para se observar! Este transtorno pode ser revertido com o uso de alguns medicamentos e ingestão de vitaminas, mas na maioria dos casos o tratamento exige considerações psicológicas e ambientais. Em alguns casos uma leve terapia tem sido eficaz para modificar o quadro de pacientes sofrendo com essa condição.

E você? Já comeu tijolo?


A pergunta parece meio inusitada, mas se refere a uma prática antiga, conhecida como geofagia, ou o ato de comer terra. Mesmo hoje em dia, em algumas culturas, é comum encontrar diversos tipos de terra ou argila vendidos em mercados de comida. São pequenos pacotinhos, prontos pra te deixar de boca cheia. Mas será isso um belisque saudável, livre das gorduras e açúcares do dia-a-dia?
Meu primeiro contato com o assunto foi há uns dez anos, quando minha tia, uma enfermeira de primeira linha, perguntou-me porque algumas pessoas comiam terra. Curioso, perguntei de onde ela tinha tirado isso e ela me contou que, freqüentemente, pacientes em tratamento de hemodiálise tinham esse tipo de desejo. Alguns até traziam pedacinhos de tijolo na bolsa para comer mais tarde ou deixar dissolver embaixo da língua. Vale notar como o contato pessoal com pacientes e a humildade para ouvi-los é importante para despertar e direcionar algumas descobertas cientificas.
Lógico que eu não sabia a resposta. Pesquisei sobre o assunto e não achei nada de concreto na literatura especializada. Mais tarde respondi que deveria ser algo associado com deficiência de sais minerais, obviamente um clássico “chute” de biólogo recém-formado. Mas fiquei com aquilo na cabeça.
Recentemente aconteceu algo semelhante, que me lembrou o episódio passado. Uma amiga minha, nos primeiros meses de gravidez, soltou um comentário engraçado: tinha um desejo enorme de comer tijolos ou objetos de argila. Disse ainda que paredes de tijolinhos eram especiais e que tinha preferência pelos mais clarinhos. “Uma enorme vontade de lamber parede.” Ativei todos os meus neurônios-espelho e até salivei ao ouvi-la falar. Surreal.
Qual não foi minha surpresa ao abrir a última edição da revista Nature e me deparar com um texto explorando o assunto (The Earth-Eaters, Trevor Stokes, Nature vol. 444, 2006). Seguem alguns comentários.
Aparentemente a geofagia já existe há séculos, com relatos datados de 1800 a.C. na Suméria, no Egito e na China. Há 2.000 anos, existiam “cápsulas de saúde” feitas de terra, que eram vendidas nos mercados gregos e que supostamente teriam propriedades medicinais. Mas que propriedades seriam essas?
Existem duas hipóteses que tentam explicar a ingestão de terra. Uma delas sugere que ela seria uma fonte multivitamínica, contendo diversos sais minerais incluindo cálcio, ferro e zinco. Essa idéia recebeu apoio após a constatação de que o tipo de terra consumido em diversas regiões onde a geofagia é comum possui minerais suficientes para suplementar uma eventual dieta não-balanceada.
No entanto, dados sobre a quantidade de minérios nas amostras de terra não levam em consideração o que se passa no bolo alimentar, dentro do organismo. Ao contrário, quando a terra se mistura a sucos gástricos intestinais, em condições que simulam o ambiente do estômago, os sais minerais não são eliminados, mas se mantêm ligados à terra, que inclusive atrai minerais do meio.
Como conseqüência, os níveis de sais no organismo acabam ficando menores ainda. Aparentemente, nós não conseguimos assimilar nutrientes da terra da mesma forma que as plantas fazem. Péssima noticia para a hipótese nutricionista.
Se isso for verdade, é possível que ingerir terra cause má nutrição e não auxilie na dieta. Em apoio a essa idéia, existe um experimento feito com uma população iraniana que consome terra diariamente e que tem a maturação sexual retardada.
Ao incluir zinco na dieta, os indivíduos conseguiram atingir a maturação sexual e perderam o desejo de consumir terra. Aparentemente, o desejo bizarro pode ter sido originado pela deficiência de zinco, que também afeta o paladar. Sem o paladar, o consumo de terra passa a ser mais agradável, e a deficiência de zinco tende a aumentar, fechando o ciclo. Estranho, mas plausível.
Mas experimentos semelhantes com crianças anêmicas e geofágicas da Zâmbia não deram o mesmo resultado. Mesmo com o aumento de zinco na dieta, essas não largaram mão de comer terra, enfraquecendo a proposta anterior.
Outros estudos apontam para uma função detoxificante. A terra funcionaria como um ímã, que atrairia resíduos tóxicos no intestino, resultantes da nossa alimentação. Isso poderia explicar porque o desejo de comer terra é mais freqüente em pacientes em hemodiálise, crianças e mulheres grávidas, grupos mais suscetíveis a toxinas. Talvez isso explique também porque alguns remédios usados para tratamento de casos de contaminação por comida estragada contenham ingredientes similares à argila em sua composição.
Mesmo com todos esses estudos, ainda não existe uma explicação satisfatória para o fato de comermos terra. Esse é o tipo de questão biológica que parece bem simples, mas na verdade é extremamente complexa, pois envolve diferentes áreas do conhecimento, como a bioquímica, geologia, epidemiologia e sociologia.
Veja isso como um desafio multidisciplinar, um exercício de raciocínio onde os pesquisadores têm de interagir com a sociedade e com outras áreas do conhecimento. Desvendar esses mistérios requer, acima de tudo, cooperação internacional que, mesmo com a globalização, poderia acontecer com mais freqüência na ciência atual.
Vontade de comer terra pode ser um problema psicológico, psiquiátrico, físico ou um comportamento comum até os dois anos, quando a criança ainda têm dificuldades em diferenciar o que se pode comer. A vontade de comer terra (geofagia) ou coisas estranhas tais como sabonete, produtos de limpeza ou tinta é chamado picamalácia ou pica, e pode estar presente durante a gravidez e muitas vezes permanecendo mesmo após ela ter terminado.
Algumas causas para a vontade de comer terra e coisas estranhas:
  • problemas psicológicos como estresse, ansiedade, separação dos pais, problemas na interação familiar, abuso infantil;
  • problemas relacionados à fome, desnutrição ou à falta de nutrientes como o ferro, cálcio e zinco;
  • problemas neurológicos, como em crianças com autismo e pessoas com atrasos no desenvolvimento intelectual;
  • costumes socioculturais;
  • doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia.
Comer terra e outras substâncias que não são alimentos podem causar distúrbios no estômago, no fígado, nos rins, nos intestinos, além de infecções e infestações por vermes. Embora muitas vezes as pessoas tenham dificuldade em falar sobre esses desejos com o médico, é importante que isso seja feito. O clínico geral poderá orientar o tratamento e encaminhamentos necessários.

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